Baby Led Weaning – Mitos e Realidades


Comer

O Quarto das Brincadeiras lançou-me o desafio...

O que é o Baby Led Weaning (BLW)? O BLW é a introdução da alimentação complementar guiada pelo bebé. A partir dos 6 meses o bebé senta-se à mesa com a família e, a partir do momento em que mostra estar pronto para a introdução alimentar (ficar sentado, mesmo que com apoio; levar intencionalmente os alimentos/objectos à boca; ausência do reflexo de extrusão da língua), são-lhe oferecidos os alimentos em pedaços de acordo com o seu estadio de desenvolvimento neuro-motor. Os pais são responsáveis pela aquisição dos alimentos e pela preparação de acordo com a idade, o bebé escolhe o que come, a quantidade que come e a velocidade com que o faz. Os pais respeitam estas escolhas e os sinais de saciedade.

O BLW é um método de introdução alimentar muito diferente daquilo que é culturalmente aceite na nossa sociedade.

Existem algumas ideias pré-concebidas que dificultam a adesão das famílias (e também dos profissionais de saúde) a este método.

Mito #1 – Engasgamento

Muitos pais (e avós e outras pessoas) ficam muito preocupados que os bebés que se auto-alimentam se possm engasgar. Se o bebé controla todos os alimentos que vão para a sua boca, está sentado erecto e lhe oferecem os alimentos preparados de acordo com o seu desenvolvimento motor, o BLW não aumenta o risco de engasgamento face ao método “tradicional”. Bem pelo contrário, provavelmente diminui o risco de engasgamento pois o bebé não é um ser passivo na sua própria alimentação.

Muitas vezes as preocupações com o engasgamento estão relacionadas com o reflexo de vómito (ou gag reflex) e confunde-se este reflexo com engasgamento. Estes dois mecanismos estão relacionados mas não são a mesma coisa. O reflexo de vómito afasta os alimentos das vias aéreas se eles são muito grandes para engolir. O bebé abre a boca e empurra a língua para a frente. Por vezes deita fora pedaços de comida e até pode ocorrer um pequeno vómito. Isto não parece incomodar os bebés que se auto-alimentam e eles, habitualmente, continuam a comer como se nada tivesse acontecido. Nos bebés de 6 meses, este reflexo é despoletado numa zona mais anterior (à frente) da língua, desta forma, é activado mais facilmente que nos adultos (ou crianças mais crescidas). Por outro lado, quando ocorre, o pedaço de comida que o desencadeia está muito longe das vias aéreas – reflexo protector. Ajuda o bebé a lidar com os alimentos de forma segura. E por isso, quando acontece um reflexo de vómito num bebé de 6 ou 7 meses isto não significa que os alimentos estão próximos das vias aéreas e raramente significa que eles estão em risco de engasgamento.

O engasgamento ocorre quando há obstrução parcial ou total das vias aéreas. Quando alguma coisa bloqueia parcialmente as vias aéreas do bebé ele, automaticamente, começa a tossir. Isto, habitualmente, é bastante eficaz. Se a obstrução é total, o que é muito raro, o bebé não consegue tossir e precisa que alguém inicie as manobras de desengasgamento. O engasgamento, habitualmente, é silencioso.

Dois factores que aumentam o risco de engasgamento:

  • Alguém colocar alimentos (ou bebidas) na boca do bebé;
  • Bebé numa posição mais recostada ou deitada.

Mito #2 – Comer o suficiente

Independentemente do método de introdução alimentar utilizado, é da responsabilidade dos pais oferecerem alimentos nutritivos que promovam uma dieta equilibrada para o bebé – a diferença no BLW é que o bebé decide o que comer de entre os alimentos apresentados.

Existe o mito de que os bebés cuja alimentação é controlada pelos seus pais irão comer os alimentos certos, ao contrário dos bebés que podem escolher, que só comerão batatas fritas e chocolates. Muitos pais que utilizam o método “tradicional” relatam muita dificuldade em fazer com que os bebés comam os alimentos certos e têm que recorrer a truques tais como, “esconder” os vegetais na comida, alimentar o bebé em frente à televisão (assim eles nem se apercebem do que estão a comer) ou prometer recompensas se eles comerem os brócolos. Em contraste, a maioria dos pais que utilizam o BLW referem que os seus filhos comem uma grande variedade de alimentos sem necessidade de persuasão, incluindo muitos alimentos que as crianças “supostamente” não gostam, como a couve.

Existem algumas evidências que as crianças escolhem, naturalmente, bons alimentos e nas quantidades certas, se lhe for dada a oportunidade. Claro que este aspecto necessita de mais evidências científicas mas a ideia é suportada pelo facto de a maioria das histórias sobre bebés “esquisitos” com a comida virem de famílias em que a introdução dos sólidos foi controlada pelos pais. A maioria das famílias que experimentaram ambos os métodos referem que não voltariam atrás (para a abordagem convencional) porque o seu bebé BLW come muito melhor que os outros filhos.

Mito #3 – Comer com as mãos

Não existe motivo para preocupação: o bebé não vai comer para sempre com as mãos. Nem se vai sujar todo a vida toda. As crianças têm um impulso muito forte para copiar/imitar aquilo que as rodeia, por isso, a não ser que os pais comam sempre com as mãos, o bebé vai querer comer com faca e garfo. Quando os pais incluem o bebé nas refeições da família (mas INCLUEM MESMO) e assim que ele estiver à vontade a auto-alimentar-se, os pais devem reservar-lhe um lugar na mesa com os seus próprios talheres (é importante escolher um conjunto apropriado para crianças). Tal como com a comida, é preferível que os pais não tenham as expectativas demasiado elevadas. Numa fase inicial, o bebé vê os talheres como parte da brincadeira e da imitação e não como um meio para colocar comida na boca.

Mito #4 – Desperdício de comida

Esta é uma preocupação comum nos pais que pensam iniciar o BLW. Na verdade existe sempre algum desperdício quando os bebés iniciam a alimentação complementar – mesmo com purés. Com o BLW até poderá haver menos desperdício e ficar mais barato. Isto porque:

  • Com o BLW os bebés partilham as refeições da família. Será apenas necessário comprar mais alguns alimentos extra em vez de “comida para bebés”.
  • Quando os pais fazem os próprios purés em casa também existe algum desperdício, fica muita comida nos processadores de alimentos.
  • Fica sempre alguma comida na cadeira ou no chão, independentemente da forma como se alimenta o bebé. Os pedaços de comida são mais fáceis de limpar e até de pegar e voltar a colocar no tabuleiro da cadeira do que os purés.
  • Os bebés que sempre se habituaram a alimentar-se têm menos probabilidade de serem “esquisitos” com a comida. As crianças “esquisitas” desperdiçam imensa comida.
  • Finalmente, se a família tiver um cão, pode poupar na compra de comida própria para o mesmo. Os cães rapidamente aprendem a vigiar a área à volta de um bebé que se alimenta sozinho!

Mito #5 – Não se brinca com a comida

Confiar no bebé, confiar que ele irá comer tudo aquilo que necessita e deixá-lo manipular os alimentos (ou brincar com os alimentos), são talvez os dois elementos mais importantes do BLW. Também são os aspectos do BLW que os pais (e os avós) consideram mais difíceis de se adaptarem. Durante gerações os pais foram encorajados a ter a certeza que os bebés comiam todos os pedacinhos de comida, quer quisessem, quer não. O objectivo era garantir que os bebés aumentavam muito de peso e brincar com a comida sempre foi considerado um desperdício de comida e falta de educação. Actualmente, sabemos que aumentar muito de peso é prejudicial para os bebés e eles necessitam de ingerir quantidades pequenas de alimentos nos primeiros meses de introdução alimentar. A amamentação (ou o leite artificial) fornecem os nutrientes e as calorias, os alimentos fornecem uma importante fonte de aprendizagem que irá contribuir para uma alimentação mais saudável no futuro.

A brincadeira é uma importante ferramenta para os bebés aprenderem sobre o funcionamento das coisas e para o desenvolvimento de novas capacidades e competências, por isso é importante proporcionar o máximo de momentos de brincadeira. Esmagar comida, espalhá-la na mesa e deixá-la cair no chão ensina ao bebé aspectos como o volume, tamanho, forma e textura – e sobre diferentes tipos de alimentos, ao que sabem e como manipulá-los.

À medida que o bebé cresce ele vai comer mais e brincar menos, mas mesmo assim continuará a precisar de brincar de vez em quando.

Mito #6 – O BLW é uma moda

Alguns pais e avós ao ouvirem falar sobre BLW pensam “isto não é nada novo, eu fiz isto”. Na realidade, o BLW não é um tema novo, não é uma moda. Falar sobre BLW, isso sim, é uma novidade. Na verdade, o BLW é, talvez, o método mais antigo de introdução da alimentação complementar.

Muitos pais, especialmente aqueles que têm 3 ou mais filhos, descobriram quase que por acidente que deixar o bebé ser autónomo torna a vida mais fácil e agradável para todos. Infelizmente, porque estes pais ficam preocupados que os considerem negligentes (ou até preguiçosos) eles não falam sobre isso.

Mito #7 - Bebés sem dentes

A presença (ou ausência) de dentes não é um sinal de que o bebé está (ou não está) preparado para a introdução dos alimentos sólidos e por isso o BLW pode e deve ser utilizado por todos os bebés, quer tenham dentes ou não. A verdade é que os bebés só aprendem a mastigar, mastigando. Por outro lado, os primeiros dentes a nascer são (regra geral) os incisivos centrais. Estes dão início ao processo de mastigação cortando os alimentos mas a função de triturar e esmagar os alimentos é dos pré-molares (que nascem pelos 13-19 meses) e dos molares (que nascem entre os 23-33 meses). Por isso mesmo um bebé com 2, 4, 6 ou mesmo 8 dentes (tem apenas dentes incisivos) mastiga com as gengivas, igual a um bebé edêntulo (desdentado).

Mito #8 - Os bebés precisam de sopa para se desenvolverem fortes e saudáveis

A sopa, a tão famosa sopa! Se existem questões culturais na alimentação, esta é uma das caracteriza os Portugueses. Penso que um dos grandes objectivos da sopa é permitir o consumo de vegetais e legumes. Existem várias formas de consumir sopa no método BLW:

- A sopa não tem que ser obrigatoriamente um puré cremoso e extra suave. A sopa pode ser aos pedaços;

- Os Ingleses utilizam um conceito bastante interessante que pode ser usado para a sopa em puré mas também para outros alimentos com consistência mais fluída como o iogurte, puré de batata… Eles falam em “dipping”. O puré é colocado numa taça e oferecem-se ao bebé palitos de legumes, carne, peixe ou fruta para que ele introduza no molho e coma. É um excelente predecessor da utilização da colher;

- Oferecer o puré num copo ou caneca de forma a que o bebé consiga beber sozinho;

- Aguardar até que o bebé consiga manipular a colher sozinho. São só alguns meses. Um truque para facilitar esta tarefa é oferecer um puré mais espesso.

 


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